“O Martinho da Vila é uma das mais importantes lideranças dos movimentos negros do Brasil.
Ele é o nosso Zumbi. O investimento dele nesta área é muito grande. Ele é uma pessoa plural – uma pessoa que abriga todas as vertentes. Diria que ele extrapola os movimentos. Ele não só é uma força unificadora para a raça negra, como abrange todas as raças. É uma grande liderança. Ele é do negro, o cantor das mulheres, ele é político, é considerado o nosso poeta maior. Amo demais ele.
Ainda que procurasse da primeira à última letra do alfabeto, não encontraria uma palavra para definir a importância do Martinho da Vila. Ele é o nosso xodó."


Benedita da Silva, Governadora do Estado do Rio de Janeiro.

 

MARTINHO E ANGOLA

Martinho tem uma relação muito especial com a África, em especial com Angola. O cantor fez sua primeira viagem ao continente negro no início de sua carreira, ainda nos anos 70. Durante muitos anos, foi a ponde ligação entre o Brasil e Angola – sendo considerado Embaixador Cultural – em uma época que o país africano não era representado por uma embaixada em nosso país.
Das várias apresentações realizadas em Angola, deve se destacar o projeto Kalunga. Idealizado por Martinho e dirigido por Fernando Faro, foi realizado no início dos anos 80.  Foram feitos memoráveis shows por várias regiões do país, que contaram com uma seleção de artistas brasileiros, como os saudosos Dorival Caymmi, João Nogueira e Clara Nunes. O projeto também contou com a presença de Chico Buarque de Holanda, Miúcha, Djavan, Dona Ivone Lara entre outros.
Três anos mais tarde, Martinho reverteu o caminho. Elaborou o Canto Livre de Angola, que trouxe aos brasileiros – até então pouco conhecida – a música angolana. O canto livre trouxe vários artistas, como Elias Dia Kimuezo, considerado o rei da música em Angola. Foram realizados shows no Rio, São Paulo e Salvador. As apresentações foram tão emocionantes, que foram registradas ao vivo no LP “Canto Livre de Angola” (Reeditado/editado em CD, anos mais tarde pela ZFM Records, sob o título de “Angola Canta”).
A experiência foi tão entusiasmante, que um ano após o Canto Livre, Martinho criou um grupo de trabalho, que realizou o primeiro encontro de artes negras - O Kizomba. Nestes encontros foram trazidos artistas e  personalidades não só de Angola, ou da África, mas de outros países como EUA, além de contar com a participação de vários artistas nacionais. Foram realizados ... encontros.

 

KIZOMBA

Kizomba é uma palavra africana que significa encontro de identidades, festa de confraternização e é também o nome que eu dei a um grupo de gente organizada e preocupada com o Brasil, com a cultura e com a problemática dos negros. É também o nome que escolhemos para batizar os Encontros Internacionais de Arte Negra.
O grupo Kizomba conta com várias cabeças pensantes, como a senadora Benedita da Silva, Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho e muitos outros colaboradores. Mantemos as nossas atividades, promovendo eventos de arte e cultura negra, além de prestarmos assessoria a artistas e personalidades africanas que vêm ao Brasil.
Já os encontros “Kizomba” terminaram em 1990. O primeiro aconteceu em 1984, embalado pelo sucesso do evento “Canto Livre de Angola” , realizado no ano anterior. Depois fizemos outro a cada dois anos.
Decidi fazer as Kizombas porque senti que o povo brasileiro tem muita curiosidade e pouca informação sobre a mãe África. Além de não ter muita informação sobra a cultura negra na diáspora. Para se te uma idéia, Angola, tão influente na formação cultural brasileira, só veio ao Brasil pela primeira vez quando realizamos o Primeiro Canto Livre, em janeiro de 1983. Sem falar que, até a realização da primeira Kizomba, o Brasil estava praticamente à parte das manifestações anti-apartheid.
Já participaram cerca de 30 países, entre os quais estavam Angola, Moçambique, Nigéria, Congo, Guiana Francesa, Estados Unidos e África do Sul.
Do Rio de Janeiro participaram muitos grupos, tais como o Olorum Baba Mim, Filhos de Ghandi, Fundo de Quintal, Samba Som Sete, Agbara Dudu, Jongo do Salgueiro, Império do Futuro, Vissungo e As Gatas. Também participaram os grupos baianos Ilê Aiê, Reflexus, Araketu, Olodum. Minas Gerais, Pernambuco e Espírito Santo também tiveram representantes.
Apesar do alto custo de um movimento do porte do Kizomba, financiei sozinho os dois primeiros. Aliás, sozinho não, pois a Ruça entrou com todas as jóias que lhe dei. Além de uma letra de câmbio que a gente tinha.

 

CONCERTO NEGRO

O Concerto Negro enfoca a cultura negra na música erudita.

Martinho da Vila / Maestro Leonardo Bruno.

A idéia do Concerto Negro nasceu em 1988, ano em que o cantor e compositor Martinho da Vila, junto com o maestro Leonardo Bruno, atuaram num projeto de integração clássico-popular. Daí, resolveram dar continuidade ao concerto que mostra a participação do negro na música erudita, já tendo sido apresentado no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, na Sala Cecília Meireles, RJ, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Diamantina, MG e em setembro de 2000 o Concerto Negro foi apresentado no Teatro Municipal do RJ – Uma celebração da Cidadania.
Em breve, Martinho pretende realizar o Concerto Negro no Rio de Janeiro, no Theatro Municipal, para gravação do DVD para que o público de todo o Brasil tenha acesso a este projeto de integração Clássico-popular com novos arranjos, além de nova apresentação no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.