O Campeonato

Na sala lá de casa, no Grajaú, um aparelho televisor mostrava a transmissão do resultado pra nossa gente muito nervosa, inclusive o jornalista Gonçalves, vilaisabelense fanático. Todos de caneta e papel nas mãos e corações nas bocas.

Uma das grandes emoções de um sambista é quando ele pisa na passarela e outra é no dia da vitória. É muito mais nervosa a emoção, quando o seu time está com pinta de campeão. Estou falando de sambista que tem bandeira. Há os que desfilam em duas, três ou mais agremiações, ou cada ano em uma diferente, os quais se divertem muito no carnaval, curtem muito mais a passarela, mas não têm emoções tão fortes como a do componente que veste a camisa só da sua escola. Estes sentem sensações muitíssimo fortes no dia do resultado ao acompanharem a contagem ponto por ponto, quesito por quesito. Alegoria, conjunto, fantasia, evolução ... É a hora do choro e do grito de alegria. Eu não gosto de acompanhar a contagem quando estamos no páreo pra campeão ou quando desfilamos mal e corremos o risco de descer. Geralmente vou pra algum lugar sem rádio, alheio aos acontecimentos. Desta vez fiquei em casa, mas me tranquei no quarto, no andar de cima. Joguei paciência. Dormi de nervoso. Igualzinho como quando estou num avião e ele começa a balançar. Por incrível que pareça, eu fecho os olhos e durmo, acreditem se quiserem.

Uma certa vez eu fui com a Martinália e mais alguns músicos num barco do território da Guiana Francesa para a Ilha do Diabo e, como o mar estava bravo e o barco jogava muito, eu fechei os olhos e adormeci. Ao chegar lá, quando me acordaram para aportar é que vi que o barco estava uma nojeira. Quase todo mundo tinha vomitado. O mesmo se deu quando eu fui de São Luís do Maranhão numa embarcação para Alcântara com o compadre Aldir e mais não sei quem.
Voltando ao assunto, dormia a sono solto em dia tão tenso, quando o Tunico bateu à porta do meu quarto e eu dei de cara com ele de olhos arregalados.

- Pai, estamos na frente!
- Falta muito?
-Só um envelope e eu estou que não agüento. Vou Ter um troço. Quero ficar aqui com você. A Beija-Flor também ameaça, mais ou vai dar nós ou a Manga.

Dei um pulo e fomos pra sala. Todo mundo tenso. Lembro-me bem de um angolano filho do Mestre Geraldo que desfilou conosco, acompanhando a notas com as mãos na testa e a cabeça entre as pernas, concentrando para ouvir o resultado, mas sem coragem de olhar pra telinha. O Pedro Paulo Cara de Cão me deu uma cerveja e enchi o copo de espuma, entornando o precioso líquido mais fora do que dentro. Todas as mãos estavam trêmulas como as minhas.
Foi lida uma nota desfavorável da escola de Nilópolis, fundada pelo Cabana, que nós comemoramos com um grito uníssono e voltamos imediatamente ao silêncio total. Vai ser anunciado o ponto decisivo. Respirações ofegantes.

Deu Vila. Gritos e abraços. Todo mundo pulando. A casa parece balançar. Tunico desmaiou. Pensei que era palhaçada dele, mas entro na dança dando um pulo em cima dele caído no chão. Ih! O bichinho estava mole, apagado mesmo. Dei-lhe uns sacodes e água com açúcar. Só então fui ver pela tevê a festa da turma de Noel Rosa no Maracanãzinho.
Me lembrei de antigos fundadores e outros batalhadores que morreram sem viver este momento e os imaginei abraçados e chorando lá no céu, comemorando com Noel e, em pleno Carnaval, fiz o sinal da cruz, agradecido.

Embora não seja um católico praticante, sempre me lembro de Deus e rezo quando acontece algo de muito bom ou se estou emocionalmente feliz.

Cumprido uma promessa feita no samba “Sempre Sonhar”, fui lá para o Macacos e o pessoal berrava o “Valeu Zumbi” ao som da bateria, emocionado. Subindo a ladeira do Jardim, em direção ao Terreirinho , foi chegando um bloco enorme de pivetes, com molecada batendo em latas, baldes, panela velha, bacia e não sei mais que, em alegre farra. Fui pra casa da Filomena, mulher do Mauro, que fica em posição estratégica e lá do muro fiquei olhando a alegria.
Como é bom ver o povo feliz ...

(Extraído do do Livro Kizomba, de Martinho da Vila)